Conservação de energia em edifícios
João Viegas, LNEC
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“Os produtos da construção são integrados num ’todo’ que é o edifício. Todos os produtos nele integrados contribuem para os impactes inerentes ao ciclo de vida do edifício. Na verdade, o princípio que deve ser seguido é o da minimização dos impactes inerentes ao edifício durante todo o ciclo de vida. Naturalmente podem existir alguns aspectos que circunstancialmente sejam considerados mais relevantes e privilegiados. Por exemplo, a energia pode ter uma importância especial pelo grande impacte na fase de utilização do edifício e por ser relevante reduzir a dependência energética relativamente a fontes politicamente instáveis, embora este último aspecto tenha a sua importância actual um pouco mais mitigada devido à importante incorporação de energias renováveis de origem nacional no mix energético nacional.

 

Assim, os componentes e elementos da construção não devem ser vistos isoladamente. O RCCTE impõe (e bem) que seja realizado o balanço térmico a toda a envolvente do edifício. Neste contexto, um maior coeficiente de transmissão térmica de um componente da envolvente pode ser compensado pela adopção de menores coeficientes de transmissão térmica noutros elementos da envolvente. Esta liberdade permite ao projectista optimizar o projecto tendo em conta as variáveis que considerar relevantes, por exemplo o custo do investimento, cumprindo ainda assim as exigências do regulamento. Esta situação é particularmente frequente no que respeita à caixilharia. Em geral as paredes dotadas de isolamento térmico têm um coeficiente de transmissão do calor mais reduzido do que a caixilharia exterior. A área relativamente reduzida correspondente à caixilharia exterior na envolvente limita o impacte das perdas de calor que por esta podem ocorrer. Assim, poderão em muitos casos ser adoptados caixilhos com coeficientes de transmissão do calor correntes sem pôr em causa o cumprimento regulamentar, sendo assim possível ter custos de investimento mais reduzidos.

É pois fundamental que sejam claramente definidos quais os aspectos que devem ser tidos em conta (consumos energéticos, impactes ambientais, custos, etc.) na optimização de uma construção. E que sejam considerados todo o ciclo de vida da construção e o seu perfil de utilização. Dado que a consideração de todos estes aspectos pode ainda ser complexa, as medidas regulamentares orientam o projectista (da construção nova ou da reabilitação) na selecção dos aspectos a privilegiar. Ainda assim, permitem um leque de opções, como se exemplificou relativamente à regulamentação no domínio da conservação da energia, que possibilitam ao projectista desenvolver o seu exercício de optimização no domínio da engenharia, por exemplo tendo em conta a redução dos custos totais.

As características de desempenho dos produtos da construção podem ser encontrados na sua declaração CE. Todavia, frequentemente é necessário um exercício de engenharia, envolvendo cálculo, para ser possível seleccionar o perfil de requisitos adequado para o produto em função da sua utilização expectável. Por exemplo, no caso do desempenho térmico da caixilharia exterior, a declaração de conformidade pode indicar a classe de permeabilidade ao ar, o coeficiente de transmissão do calor e o factor solar, mas é necessário cruzar estas características com o projecto de térmica do edifício para ser possível estabelecer-se o perfil de requisitos adequado. A realização desta acção é suficiente para assegurar a adequação da caixilharia sem incorrer na especificação de características de desempenho excessivas que, em geral, são contrárias à necessária optimização dos custos da construção.

Para apoiar o projectista nesta sua actividade é desejável que existam documentos contendo recomendações sobre o perfil de requisitos a impor aos produtos da construção em função das condições em que são utilizados. No âmbito da normalização europeia existem as normas de ensaio, as normas de classificação dos resultados de ensaio e as normas de produto, que em muitos casos são normas harmonizadas e conduzem à marcação CE. Considera-se que as normas de definição dos perfis de requisitos podem ser desenvolvidas pelos estados membros, uma vez que estão directamente relacionadas com as características próprias de cada país. Em Portugal esta possibilidade está a ser usada pela Comissão Técnica de Normalização CT 98 (Portas, janelas, fachadas cortina, cerramentos de vãos, respectivos acessórios e ferragens) que está a desenvolver uma norma que especifica o perfil de requisitos da caixilharia (em termos de permeabilidade ao ar, estanquidade à água, resistência ao vento, resistência mecânica aos esforços aplicados pelo utilizador, desempenho térmico e desempenho acústico) em função da sua exposição às acções consideradas (vento, temperatura, ruído, etc.). Esta norma surge da necessidade de apoiar o projectista e vem na sequência de documentação com este carácter que tem sido elaborada e emitida pelo LNEC desde o fim dos anos 80 (embora com um conteúdo menos abrangente). Esta norma, em preparação, procura definir o perfil de requisitos mínimo que será aceitável para a exposição às acções características de cada local onde a caixilharia esteja a ser aplicada. Assim, permitirá, por um lado, reduzir (se for cumprida) a ocorrência de desempenho deficiente (quando este se deve a problemas de inadequada selecção da caixilharia) e, por outro lado, dar um referencial ao projectista prescritor da caixilharia sobre o nível de desempenho suficiente, de forma a permitir a limitação do custo da caixilharia. Esta possibilidade contribui para a qualidade da construção mantendo os seus custos tão reduzidos quanto possível.

Entende-se assim que a abordagem que deve ser feita aos aspectos da conservação de energia não deve ser feito de modo isolado, mas antes tendo em conta o edifício na sua globalidade (compreendendo o seu perfil de utilização), o seu ciclo de vida e o conjunto dos vários impactes que tem. Embora possa ser adequado privilegiar apenas alguns destes aspectos, essa opção deve ser baseada nos resultados de uma análise global e não deve resultar de uma apreciação parcelar e meramente conjuntural”.

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