"Efectuamos actualmente cerca de 50 estudos por ano"
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Maria do Carmo Proença e Manuela Cano dispensam apresentações na área da Qualidade do Ar Interior pelo trabalho que têm desenvolvido no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA). Têm participado nas mais variadas sessões de informação sobre a avaliação da qualidade do ar no interior dos nossos edifícios, um tema que agora ganha maior relevância no âmbito da nova regulamentação.

O trabalho de avaliação da qualidade do ar interior tem evoluído nos últimos anos?

Sim. O nosso laboratório, tem vindo a efectuar a avaliação de parâmetros ambientais relacionados com a qualidade do ar interior, nomeadamente: condições térmicas sob ponto de vista de conforto, dióxido de carbono, e concentração de partículas totais em suspensão no ar, desde a sua criação, em 1971. Posteriormente, e à medida que o conhecimento nesta área tem evoluído, a Unidade de Ar e Saúde Ocupacional (ex Centro de Saúde Ambiental e Ocupacional) do INSA foi introduzindo nestes estudos novos parâmetros ambientais, designadamente, microrganismos (bactérias e fungos), compostos orgânicos voláteis totais (COVTs), formaldeído, monóxido de carbono e ozono. Podemos, se a situação o justificar, medir outros parâmetros como por ex: fibras minerais artificiais.

O volume de trabalho e os pedidos têm aumentado muito?

Houve um aumento significativo nos últimos 12 anos. Efectuamos actualmente cerca de 50 estudos por ano.

E a equipa tem aumentado?

Infelizmente continuamos os mesmos. Poucos para as solicitações que nos chegam.


Não sentiram um maior volume pedidos em 2006 com a saída da legislação?

Antes pelo contrário. Até houve um abrandamento. As pessoas ficaram à espera da portaria e de mais esclarecimentos. E também provavelmente o aparecimento de outros concorrentes poderá ter tido algum efeito na divisão da procura.

Quais os motivos mais frequentes da solicitação de pedidos de estudos da QAI por parte dos clientes?

A maioria dos pedidos é motivada por queixas dos ocupantes dos edifícios. Temos também muitos casos em que após uma primeira avaliação são pedidas avaliações regulares para monitorizar a situação existente.

Como se processam os pedidos? As empresas contactam directamente o Laboratório?

Sim. Fazem-no a maioria das vezes por fax, mas também por ofício e raramente por e-mail. Muitas vezes contactam-nos telefonicamente para expor directamente o problema e se aconselharem sobre o tipo de estudo que deverá ser realizado.

Que tipo de empresas é que normalmente solicitam este serviços?

São normalmente empresas de serviços.

Hotéis também?

Não, muito poucos. Temos apenas 1 ou 2 casos. Geralmente temos pedidos de Bancos, Seguradoras...


Sempre edifícios de grande dimensão?

Normalmente sim.

O Estado também é um cliente?

Temos feito muitos estudos para o Estado. São exemplos a Assembleia da República, residência oficial do Primeiro-ministro, Palácio de Belém e muitos outros edifícios públicos (Ministério da Saúde, do Trabalho...).

Temos um bom ambiente interior nos edifícios do Estado?

Temos encontrado alguns problemas. O facto de, até agora, não existir ninguém efectivamente responsável pela manutenção das instalações e dos sistemas de ventilação que pudesse dar resposta e prevenir algumas situações, também não tem ajudado. Pensamos que com a nova legislação, esse problema irá ser mitigado. De qualquer modo, as medidas de correcção que habitualmente propomos, na sequência das nossas intervenções, são geralmente implementadas.

Os pedidos integram um programa detalhado com objectivos definidos?

Não. Na maioria dos casos os pedidos chegam-nos sem qualquer orientação prévia. As pessoas apenas referem uma avaliação à qualidade do ar e isso implica um posterior contacto, da nossa parte, para tentar perceber um pouco melhor o que se pretende, conhecer as características do edifício, distribuição dos espaços, etc. No fundo, temos que recolher informação que permita que a nossa proposta vá ao encontro do estudo adequado daquela situação.


Mas é fundamental conhecer o local e perceber quais os pontos mais significativos em termos de recolha de amostras...

Depois de analisado o edifício, as suas características, ocupação, etc. esse é um factor determinante. Aliás, as nossas propostas são elaboradas em função dos pontos de medição que, após a análise da situação, consideramos necessários, embora posteriormente possam ser alterados ou acrescentados mediante as condições do local.

Genericamente, como é feita essa avaliação? Quais os critérios sobre quais os pontos a escolher?

Analisamos uma série de factores desde a compartimentação, à ocupação, a existência de queixas, localização das UTA´s (unidades de tratamento de ar) Muitas vezes, pedem-nos mais de 30 pontos de medição, desnecessariamente. Tentamos, nesses casos, mediante contacto telefónico, obter esclarecimentos suficientes que nos permitam aconselhar um número de pontos de medição que seja representativo da situação em causa.

Escolhido um ponto representativo, se eu fizer uma recolha de uma amostra hoje, provavelmente os resultados serão diferentes dos de uma amostra recolhida a semana passada...

Destacamos sempre em termos de relatório o dia e as condições em que foram recolhidas as amostras. Não podemos nunca garantir que aqueles resultados se mantenham. Logicamente que fazemos um trabalho de levantamento rigoroso em termos de condições e sempre que exista uma equipa de manutenção, procuramos conhecer as instalações etc. Normalmente tentamos encontrar o pior caso e aí temos particular atenção aos níveis de ocupação, incidência solar excessiva que é um factor de grandes queixas, entre outros.


Isso significa que tentam encontrar as potenciais zonas de problemas?

Exactamente, escolhemos sempre as piores situações, o que não quer dizer que no local, esses pontos não possam ser alterados. Escolhemos também pontos em que não existem queixas para utilizarmos como termo de comparação.

Nessa avaliação dos pontos de medição, têm em conta também o tipo de materiais e equipamentos que são utilizados?

Sim, pois normalmente os problemas existem nas zonas com muito papel, plantas, alcatifas, fotocopiadoras... temos que ter tudo isso em atenção.

E em relação aos sistemas de AVAC, como é feita a avaliação dos pontos críticos?

No caso de existirem várias UTA´s temos que abranger todas elas porque as condições de trabalho podem ser diferentes. É, ainda, extraordinariamente importante obtermos informação correcta sobre a manutenção que é feita ao sistema de ventilação, nomeadamente, periodicidade de substituição dos filtros, limpeza das UTA's ... Agora já começa a ser diferente, mas há uns anos atrás a resposta habitual era a de que os filtros eram mudados quando estavam rotos! Já nos responderam inclusivamente que era necessário deitar o edifício abaixo para as condutas poderem ser limpas... Continua a haver muita confusão em relação ao ar condicionado. Para a maioria das pessoas o ar condicionado faz frio ou calor e não interessa se trás ar novo do exterior ou não. A maior parte das vezes as pessoas não têm a percepção de que não têm renovação do ar e que o ar que respiram se vai viciando ao longo do dia.

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Segue-se a colheita e medição dos parâmetros ambientais (físicos químicos e microbiológicos) das amostras...

A colheita é feita de acordo com o parâmetro ambiental em causa e faz-se em zonas representativas da ocupação, ao nível das vias respiratórias dos ocupantes. Também, em alguns casos fazemos medições junto à entrada de ar novo para o edifício e na insuflação de ar nos compartimentos. Nestes locais determinamos apenas as concentrações de partículas e de microrganismos. Na maioria dos casos temos chegado à conclusão de que a contaminação existente tem origem nas próprias pessoas que ocupam os espaços.

E a fonte de contaminação ser o ar exterior? Acontece muitas vezes?

Acontece. Mas aí a solução de tratamento do ar novo dos sistemas de ventilação é determinante. As tomadas de ar novo são pontos críticos que sabemos que vão influenciar os resultados e portanto todos os aspectos que têm a ver com uma cuidada manutenção são determinantes.

É possível perceber exactamente qual é a fonte de contaminação?

Na maioria das vezes sim. É no entanto necessário que seja feito um levantamento adequado da situação em todos os locais Com este levantamento feito em condições e em cada um dos locais, se tivermos em consideração os mais variados factores, é possível saber qual a fonte. Mas convém perceber que a visita ao local é fundamental porque existem factores que aparentemente podem passar despercebidos e que se revelam muito importantes no resultado final. As notas que tomamos nos locais ajudam-nos a enquadrar e a perceber muitos dos resultados.

Quanto à deficiente manutenção dos sistemas de ventilação e ar condicionado? São das fontes de contaminação mais comuns?

Não tanto quanto se pensa, mas é um facto a ter sempre em conta. A utilização de filtros inadequados e a falta de limpeza dos mesmos é um dos grandes problemas. Muitas vezes os edifícios estão bem projectados mas as posteriores compartimentações dos espaços são feitas aleatoriamente, sem qualquer critério, o que dá muitas vezes origem a uma deficiente distribuição da ventilação.


Os materiais utilizados também contribuem para a contaminação interior?

Sim contribuem. No entanto a principal fonte de contaminação interior são as próprias pessoas, como já se afirmou. Logo, deve evitar-se a sobreocupação humana e fornecer aos locais quantidades de ar novo adequadas que permitam uma renovação do ar efectiva. Até há muito pouco tempo a existência de fumadores era, também, uma das causas principais de contaminação dos espaços interiores. Em locais sobreocupados e com fumadores a situação era muitas vezes dramática. Agora cremos que irá ser diferente.

Mas se tivessem que fazer uma escala, quais os problemas mais complicados?

Ar novo insuficiente; deficiente limpeza e manutenção das instalações e dos sistemas de tratamento de ar; grandes áreas envidraçadas e sem dispositivos de sombreamento; existência de alcatifas; instalação de equipamentos poluentes em compartimentos ocupados sem exaustão localizada. Em muitos edifícios os aparelhos de condicionamento de ar apenas fazem aquecimento ou arrefecimento do espaço. O ar é sempre o mesmo e os poluentes andam a circular de um lado para o outro.

Com a nova legislação e inspecções periódicas vai passar a ser obrigatório os edifícios possuírem um levantamento e esquemas das instalações, terem manutenção obrigatória...

O que vai facilitar o nosso trabalho e contribuir para uma melhor qualidade do ar interior.

Mas sentem que tem havido uma evolução nesse sentido? Um maior conhecimento sobre esta necessidade?

Ultimamente sim. Desde que se começou a falar da qualidade do ar interior na altura da preparação da nova legislação que se sente um progresso.


O aparecimento recente de empresas de limpezas de condutas também tem ajudado.

Falavam há pouco de uma maior concorrência mas muitas dessas empresas de limpezas de condutas estão associadas a alguns laboratórios de forma a oferecerem um serviço mais completo. Isso é bom?

Nesses casos, muitas vezes o trabalho da avaliação do ar interior é remetido para segundo plano mesmo ao nível orçamental, com preços muito baixos porque o objectivo é o da prestação de serviços na limpeza de condutas. E, provavelmente, os resultados poderão não ser muito rigorosos. Já fizemos trabalhos para estas empresas e do nosso lado os estudos foram feitos com o mesmo rigor, no entanto muitos dos resultados não foram tidos em conta e apenas eram utilizadas as conclusões que interessavam para o negócio da limpeza das condutas.

Nos relatórios que apresentam são feitas recomendações e respectivos procedimentos preventivos?

Sim. Para a melhoria das situações encontradas sugerimos sempre a adopção de medidas, nomeadamente: o aumento do caudal de ar novo, a manutenção adequada quer das instalações, quer dos sistemas de ventilação, a instalação de equipamentos poluentes em compartimentos isolados com exaustão localizada, a remoção das alcatifas, a colocação dos arquivos em prateleiras fechadas, entre outras que poderão ser necessárias de acordo com os problemas encontrados.

Falaram das queixas que muitas vezes estão na origem dos pedidos...

As queixas estão na maioria das vezes relacionadas com problemas existentes, mas acontece também estarem associadas a factores psicológicos, como por exemplo: conflitos pessoais; trabalho excessivo; moral baixo e insatisfação; potenciais problemas de saúde. Temos sempre a preocupação de realçar que os resultados dos estudos devem ser divulgados junto dos utentes dos edifícios.


Mas infelizmente isso nem sempre acontece.

Já falámos dos parâmetros genéricos utilizados na avaliação da qualidade do ar interior mas há ainda a considerar a contaminação microbiológica...

As bactérias constituem bons indicadores gerais de contaminação do ar em espaços ocupados, mas efectuam-se também avaliações da contaminação do ar por fungos, calculando as suas concentrações e identificando as espécies presentes num determinado espaço.

Há um conhecimento por parte das pessoas das espécies que possam constituir um problema?

Não de uma forma rigorosa e, por vezes, existe o mito de que o ar não deve conter microrganismos. Há 12 anos que fazemos  a avaliação da contaminação microbiológica do ar em espaços interiores e o mais comum é encontrarmos microrganismos quaisquer que sejam as instalações. A contaminação por fungos, de uma maneira geral, está mais relacionada com a existência de alcatifas, plantas naturais, água em excesso seja nas paredes ou nos materiais (humidades elevadas). Num estudo efectuado pela nossa Unidade, em 30 edifícios de escritórios, verificámos  existir uma relação significativa entre as concentrações de fungos no exterior e no interior dos edifícios, indicando que a maior parte dos fungos que existem no interior têm origem no exterior. O que acontece é que, em determinados ambientes, criamos condições, no interior, para que eles se desenvolvam mais do que seria normal, ou seja, favorecemos a amplificação desses mesmos fungos.

No que se refere às bactérias, a sua origem está muito relacionada com as pessoas que ocupam os espaços. Há uma relação entre a ocupação, a concentração de bactérias e o dióxido de carbono, podendo ambos ser considerados como indicadores de deficiência de caudal de ar novo e/ou sobreocupação.


Quando as pessoas vêem focos esverdeados de humidade nas paredes, o que é suposto lá estar?

De uma maneira geral o fungo mais comum no ar interior é o Cladosporium sp seguido do Penicillium sp, e a maioria das espécies desses fungos são verdes.

Quais os efeitos que podem provocar?

Podem provocar infecções, alergias ou reacções tóxicas....

A maior parte dos fungos são alergénicos e as queixas estão relacionadas com espirros, comichões, congestão nasal, reacções tipo rinite alérgica... Há, no entanto, espécies que produzem toxinas que são conhecidas pelas suas propriedades imunotóxicas e, em casos mais graves carcinogénicas.
Existem determinadas espécies de fungos, consideradas como indicadoras de contaminação, que não sendo comuns no exterior, quando existem nos edifícios, estão relacionadas com fontes de contaminação interiores, é o caso do Stachybotrys chartarum (S.atra).

E nesses casos é fácil determinar a fonte?

Não é difícil, até porque é comum voltarmos a fazer outro estudo nas mesmas instalações tempos depois, tendo a oportunidade de validar as interpretações e conclusões que apresentámos.
Mas é importante destacar que, sempre que no interior existam espécies de fungos pouco comuns no exterior, em quantidades significativas, há indícios de existência de fontes internas de contaminação do ar. Relativamente aos microrganismos não há valores limite e por isso a nossa referência é sempre o ar exterior. Assim, no interior será razoável encontrar cerca de metade da quantidade existente no exterior.


O potencial de contaminação que vem do exterior também está relacionado com as zonas do país e mesmo entre diferentes localidades numa cidade...

Para além desse aspecto, as concentrações de fungos no exterior variam sazonalmente. Na Primavera e Outono as concentrações são mais elevadas.

No litoral há muita humidade...

Mas o ar é muito mais limpo perto do mar.

O amianto continua a ser problema nos edifícios...

Sim porque as propriedades excepcionais do amianto levaram a que tivesse tido, no passado, numerosas aplicações, essencialmente, em materiais de construção, como isolamento térmico, eléctrico e acústico.

No entanto, o facto de existir amianto ou materiais que o contenham em edifícios, não implica necessariamente um risco para a saúde dos seus ocupantes. Em função do tipo de material - friável ou não friável - e da sua aplicação no edifício - acessível ou confinado - os riscos que representa para a saúde dos ocupantes podem ser completamente distintos, em alguns casos o risco pode ser muito elevado e noutros praticamente nulo.

Mas continua a construir-se com amianto?

Não. A proibição da utilização de amianto foi estabelecida, no nosso pais, desde Janeiro de 2005 através da Directiva 2003/18/CE do Parlamento Europeu e do Conselho de 27 de Março de 2003, transposta para a ordem jurídica interna através do Decreto-Lei nº 266 /2007 de 24 de Julho de 2007.

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O formaldeído continua a ser detectado por todo o mundo. Esse ainda é uma grave problema?

É um motivo de grande preocupação sobretudo nas habitações. Este era um estudo que valeria a pena fazer e é um projecto que temos intenção de implementar. A ideia é a de fazer uma avaliação com a casa terminada mas antes de ser habitada e algum tempo depois de mobilada e habitada.

Na nova legislação deveriam existir valores limite para o formaldeído?

Tendo em conta que é cancerígeno não há valores que possam ser considerados "seguros". Acreditamos que é muito mais fácil acabar-se com o formaldeído do que com o amianto.

Para alem da abolição do formaldeído, o que mudavam na nova legislação em relação aos valores sobre a qualidade do ar interior?

Os valores limite dos COVT´s está muito baixo. O valor máximo que consta no RSECE está abaixo do valor médio por nós encontrado.
Quanto às partículas, o valor é muito elevado. Nós temos feito a avaliação das partículas totais em suspensão no ar e temos um limite de 110 microgramas por metro cúbico de ar.
No caso dos fungos o valor de 500 UFC/m3 poderá ser admissível se apenas considerarmos os fungos mais comuns. As restantes espécies não devem existir em concentrações superiores a 50 UFC/m3 isoladamente, e não se deve tolerar a presença de fungos patogénicos como é o caso do Histoplasma capsulatum, Cryptococcus neoformans, Aspergillus fumigatus, Stachybotris chartarum etc. Por esta razão, devem ser identificadas as espécies presentes caso a caso e comparar com o exterior.

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