?Na Europa do Sul o mercado residencial está em baixa?
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Andrew Giles, Director Geral da BSRIA Worldwide Market Intelligence, faz-nos um balanço do que tem sido o mercado mundial e europeu do ar condicionado nos últimos anos e em especial em 2007. Os mercados emergentes estão a equilibrar o crescimento global mas a China continua em franca expansão. A Índia não será tão cedo um caso de estudo e os EUA estão a perder quota de mercado. Ao nível do produto na Europa, o destaque vai para os VRF´s, uma solução que "está a crescer dramaticamente e a começar a destronar os splits comerciais com a introdução dos mini-VRF em alguns países europeus do norte. Nos patamares de maior potência, Os VRF´s estão a disputar a parte que antes pertencia aos chillers".

As projecções para o mercado dos equipamentos de AVAC a nível mundial apontam para um crescimento anual médio de 5.8% até 2012.  O que é que realmente mudou na última década que justifique este crescimento?

A nosso ver o valor situa-se um pouco mais acima, digamos 7%. O mercado tem sido impulsionado pelo rápido crescimento de alguns mercados imaturos, tais como:

  • a Índia, na 8ª posição em 2007 que cresce 26% por ano;
  • a Rússia ocupa a 11ª posição que cresce 21% por ano, crescimento devido principalmente ao sector não residencial;
  • os Emiratos, UAE, na 14ª posição que crescem 23% por ano com a construção expandindo-se a uma taxa explosiva;
  • o Brasil na 17ª posição  que cresce 25% por ano com um sector da construção que se mantém forte e o mercado de "upgrade" para produtos de melhor qualidade.

Estes quatro países somam uns 5 milhões de unidades entre 2006 e 2011. Se a este valor somarmos a China com mais de 3 milhões de unidades, podemos concluir que quase metade do crescimento no mercado mundial se deve a estes 5 países.


Mas vale ainda a pena mencionar outros dois países:

  • a Argentina, na 21ª posição que cresce 18% enquanto o país continua reagindo à crise económica instalada;
  • a Turquia na 18ª posição que cresce 12% por ano com maior procura no sector do turismo e uma penetração crescente dos sectores residencial e doméstico.

A China tornou-se o maior produtor mundial sendo responsável por uma parte importante do crescimento do mercado até 2012. Que influência isto acarreta?

A China responde por 20% do mercado global em termos de valor e já ultrapassou os E.U.A., tornando-se agora o maior mercado no mundo. A acrescentar a isto, cerca de 62% da produção mundial em termos de unidades provêem da China. As fábricas chinesas continuam a aumentar a rapidez de abastecimento do mercado de exportação global com uma capacidade de produção cada vez mais alta. A Taxa de crescimento anual desceu para 7% ao ano com a saturação do mercado, mas o seu crescimento continuará enquanto a economia chinesa continuar a crescer. Porém para atingirem os seus objectivos de crescimento os fabricantes chineses terão que procurar novos mercados de exportação e também novos e produtos.

E que implicações é que isso terá no mercado no futuro?

A nosso ver os fabricantes chineses continuarão com crescimento nas vendas enquanto existir apoio à produção por parte das autoridades regionais e nacionais. As maiores companhias estão divididas em empresas que só fabricam para o sector residencial e empresas que só fabricam para o sector comercial com estratégias direccionadas para os diferentes mercados na Europa que continua a ser o seu foco fundamental.

Algumas estão a fazer os investimentos necessários para montar uma rede comercial forte mas isso levará algum tempo.


Tendo em atenção os próximos cinco a dez anos, em termos genéricos, as companhias chinesas e a China tornar-se-ão ainda mais importantes no mundo o que poderá traduzir-se num potencial poder para as fusões e aquisições de empresas no sector, mas isto ainda está a cerca de dez anos de distância.

A Índia poderá ter um papel muito importante?

Sim. A Índia terá um papel cada vez mais importante. Mas a índia só representa um décimo do mercado de AVAC da China. A produção na Índia destina-se principalmente para o mercado local enquanto que na China a produção é destinada ao mercado mundial. A qualidade e tipologia dos equipamentos são dirigidos, mais para a região da Índia e Médio Oriente do que para a Europa e outros mercados globais. Por outro lado a Índia ainda tem um mercado "desorganizado", mais significativo e orientado para os produtos básicos, tais como as unidades de janela que são montadas em garagens e lojas locais e são vendidas na mesma cidade.

Com salários tão baixos quanto na China e a inflação a subir, a Índia poderá vir a tornar-se mais competitiva mas isto levará ainda muitos anos. A Índia continuará aumentando a sua força no mercado global mais com as suas "soft skills" do que sendo uma potência industrial.

Não devemos esquecer ainda de salientar que algumas empresas Indianas, tais como a Tata, já estão a investir fortemente no mercado europeu em todas as áreas. Por isso espera-se que as companhias de ar condicionado façam parte da sua lista de aquisições.

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Os E.U.A. estão a atravessar uma grave crise económica. Quais são as repercussões dessa crise no mercado de AVAC nos E.U.A. e no mundo?

Em nossa opinião os factores chave do mercado dos E.U.A. cairão 7% em termos de unidades, comparativamente a 2007. Actualmente não prevemos qualquer mudança para 2009, mas há riscos de uma queda adicional no mercado se a crise piorar. As Exportações para a Europa são pouco afectadas porque a tecnologia é diferente. O efeito principal é económico com as economias asiática e europeia a exibirem baixo crescimento devido ao abrandamento dos E.U.A. e do aumento do preço dos combustíveis. O outro efeito resulta do estado geral de pessimismo do consumidor e utilizador que adopta uma atitude de expectativa - espera para ver e não compra.

Quais são as principais diferenças entre o mercado dos Estados Unidos e o mercado Europeu?

Em primeiro lugar devemos ter em conta que o mercado de EUA está a atingir a saturação com uma penetração superior a 60% em muitas partes do país pelo que o mercado é essencialmente um mercado de substituição.

Mas fundamentalmente a principal distinção é que temos tipos de produto totalmente diferentes. Nos E.U.A.  todas as casas novas e a maioria das casas existentes são construídas com condutas o que significa que é usado outro sistema que quase não é encontrado fora da América do Norte. Trata-se de um sistema "unitário" que é essencialmente constituído por uma unidade autónoma do tipo split para condutas ou uma rooftop que fornece o arrefecimento e é frequentemente ligado a uma unidade de ar quente que faz o aquecimento no Inverno. Estes produtos possuem preços muito competitivos. São vendidos anualmente uns 9 milhões de produtos unitários e 4 milhões de unidades de ar quente. Os minisplits tradicionais e as caldeiras são, respectivamente, mercados de nicho de 350 000 e 400 000 unidades. As Unidades de janela também são muito utilizadas como um aquecimento suplementar, uma vez que podem ser compradas em grandes superfícies, tipo "outlets", e instaladas por menos de 50 dólares. 60% do mercado mundial para unidades de Janela está dentro dos E.U.A.


O que realmente mudou no mercado europeu nos últimos anos?

O mercado cresceu muito na Europa e situa-se agora em 11 milhões de unidades. Em termos de unidades, 75% do mercado é controlado só por 5 países: Itália, Espanha, Turquia, Rússia e França. Em termos de valor, a Alemanha e o Reino Unido são ainda o quarto e quinto maior apesar da ausência completa de um mercado residencial.

A aplicação dos sistemas de VRF está a crescer dramaticamente na Europa destronando os splits comerciais com a introdução dos mini-VRF em alguns países europeus do norte. Nos patamares de maior potência, Os VRF´s estão a disputar a parte que antes pertencia aos chillers. No Reino Unido, por exemplo, tradicionalmente a escolha recaía sobre os chillers em sistemas com mais de 100 kW, mas tal foi a pressão exercida no mercado pelas maiores companhias japonesas que agora este patamar subiu para os 300 kW. Em França o mercado é impulsionado também por um crédito tributário de 50% para a instalação de bombas de calor onde elas são a fonte principal de aquecimento do edifício pelo que o mercado se manterá elevado enquanto este crédito existir.

Com a estabilização dos mercados de ar condicionado as grandes marcas procuram novos produtos e novas soluções. A maioria desenvolveu bombas de calor ar/água para atacar o aquecimento central e o mercado da produção de água quente sanitária, e com isso o mercado subiu a quase 200 000 unidades na Europa. Em modo de resposta as empresas de aquecimento como a Bosch e a Viessmann preparam-se para entrar no mercado do ar condicionado seguindo o exemplo dos italianos e da Vaillant. Assim, temos à vista uma batalha com disputa feroz dos mercados do aquecimento, do ar condicionado e sectores de energias renováveis.

O mercado de ar condicionado ainda está dominado pelas marcas japonesas e coreanas. A investida chinesa teve um grande impacto há alguns anos atrás e mantêm uma presença forte como "marquistas" (produtos OEM), mas em termos de marcas, o impacto foi desigual devido ao mito criado que os produtos chineses são de fraca qualidade.


Para venderem produtos de marca, particularmente no mercado profissional, as empresas chinesas têm que desenvolver a infra-estrutura comercial e terem por detrás as empresas japoneses principais e as marcas europeias.

A recente Directiva europeia sobre eficiência de energia nos edifícios está a ser transposta em todos os países. Isso pressionará o mercado para uma procura baseada na qualidade dos equipamentos?

É surpreendente o crescimento na Europa das unidades split tipo inverter. É um mercado que continua a crescer em todos os países e agora soma uns 60-70% do mercado das unidades tipo split, em volume, em 2008. Isto significa que o valor médio dos splits sobe mas a venda de unidades está mais dependente da economia e das condições do tempo. É provável que a nova legislação resultante da aplicação das directivas - revisão da Directiva de Desempenho Energético dos Edifícios, a nova Directiva dos Produtos Energéticos (eco-design) e a Directiva da Eficiência na Utilização Final de Energia e dos Serviços Energéticos - tenha efeitos adicionais no mercado à medida que for sendo implementada nos países.

Os edifícios residenciais e de serviços precisam de melhorar a sua estanquicidade ao ar o que origina o aparecimento de um mercado forte para produtos de recuperação de calor. As maiores empresas japonesas já entraram neste mercado.

Em termos de futuro próximo os regulamentos em relação aos fluidos frigorigéneos que contribuem para o efeito de estufa estão a pressionar no sentido da utilização de frigorigéneos naturais. Assim o desenvolvimento de minisplits com CO2 no Japão é já uma realidade com estimativas que tais produtos estarão no mercado dentro de dois anos. Tais produtos terão um efeito dramático no mercado Europeu que acabou de se converter ao R410a.


Podemos afirmar que temos na Europa 2 mercados de AVAC separados por factores muito diferentes? O residencial e os outros equipamentos (multi, VRF, chiller.)?

Na Europa temos duas regiões diferentes: os países mediterrâneos que incluem Portugal até à Turquia onde há um mercado residencial significativo ao sabor das condições do tempo e do stock de máquinas do ano anterior e a Europa do norte que constituem um mercado comercial menos influenciado pelo tempo e mais por temas económicos e de legislação.

Aqui e na Espanha, o mercado de equipamento residencial teve um crescimento pequeno em 2007. Em contrapartida, os outros equipamentos tiveram um significativo crescimento. Podemos considerar esta tendência natural?

Na Europa do Sul o mercado residencial está em baixa. Os mercados na Grécia, na Espanha e na Itália desceram uns 40% a 50% em 2007 devido a uma mistura de factores económicos com um começo nada cooperante do Verão. O boom da construção de novos edifícios está a esbater-se e o sector comercial é muito débil. Vai ser duro para este mercado, não só este ano, mas provavelmente, também ainda no próximo.

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